{"id":43491,"date":"2022-05-23T11:10:55","date_gmt":"2022-05-23T14:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/sindenfermeiro.com.br\/?p=43491"},"modified":"2026-04-29T16:50:07","modified_gmt":"2026-04-29T19:50:07","slug":"opiniao-maio-da-enfermagem-entre-as-licoes-da-pandemia-e-a-defesa-do-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindenfermeiro.com.br\/index.php\/2022\/05\/23\/opiniao-maio-da-enfermagem-entre-as-licoes-da-pandemia-e-a-defesa-do-sus\/","title":{"rendered":"OPINI\u00c3O: Maio da Enfermagem &#8211; entre as li\u00e7\u00f5es da pandemia e a defesa do SUS"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-43493 \" src=\"https:\/\/sindenfermeiro.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/MG_5302-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"885\" height=\"590\" srcset=\"https:\/\/sindenfermeiro.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/MG_5302-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/sindenfermeiro.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/MG_5302-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/sindenfermeiro.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/MG_5302-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/sindenfermeiro.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/MG_5302-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/sindenfermeiro.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/MG_5302-1-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 885px) 100vw, 885px\" \/><\/p>\n<p><strong><em>Texto de Jorge Henrique, secret\u00e1rio-geral do SindEnfermeiro-DF<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O m\u00eas de maio de 2022 foi, sem d\u00favidas, hist\u00f3rico para a Enfermagem Brasileira. A aprova\u00e7\u00e3o do Piso Salarial na C\u00e2mara dos Deputados, ap\u00f3s intensa mobiliza\u00e7\u00e3o da categoria nos estados e no DF, foi um alento a milhares de profissionais que sofreram durante a pandemia de Covid-19.<\/p>\n<p>Maio tamb\u00e9m foi o m\u00eas da 83\u00ba Semana Brasileira de Enfermagem, cujo tema norteador foi o debate e a reflex\u00e3o sobre as li\u00e7\u00f5es aprendidas pela categoria com a pandemia. Mas afinal, o que podemos levar como aprendizado desse per\u00edodo t\u00e3o dif\u00edcil?<\/p>\n<p>A Enfermagem \u00e9 uma pr\u00e1tica social. Portanto, n\u00e3o expressa neutralidade, seja em sua dimens\u00e3o ideol\u00f3gica ou na sua forma de agir. Inserida em determinados contextos hist\u00f3ricos, pol\u00edticos e econ\u00f4micos, ela expressa modelos te\u00f3rico\u2013pr\u00e1ticos que reproduzem as rela\u00e7\u00f5es de poder na sociedade, a dicotomia entre o pensar e o agir, os interesses econ\u00f4micos, entre outros pontos.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica de desenvolvimento desta pr\u00e1tica, que est\u00e1 intimamente vinculada \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o na sociedade, pode aproximar ou afastar a Enfermagem das necessidades de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, democratizar ou restringir o acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade, dar autonomia ou subjug\u00e1-la a outras profiss\u00f5es, assim como configurar o perfil de morbimortalidade da profiss\u00e3o frente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho impostas pelo mercado e pelos governos.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que as bases ideol\u00f3gicas e hist\u00f3ricas da Enfermagem no Brasil, entre as quais est\u00e3o a obedi\u00eancia, a abnega\u00e7\u00e3o, a humildade, o servilismo, a voca\u00e7\u00e3o e a religiosidade, j\u00e1 n\u00e3o influenciam mais na forma\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o e em suas compet\u00eancias. A Enfermagem \u00e9 uma pr\u00e1tica moderna que desenvolve pesquisas, novas tecnologias e pr\u00e1ticas avan\u00e7adas, e coordena pol\u00edticas e programas de extrema relev\u00e2ncia no Sistema \u00danico de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Mas como dito anteriormente, a pr\u00e1tica de Enfermagem se insere no contexto de desenvolvimento dos modelos t\u00e9cnico-assistenciais. No s\u00e9culo XXI, por exemplo, dois destes modelos rivalizam a hegemonia das pr\u00e1ticas em sa\u00fade: a sa\u00fade coletiva e a medicina cient\u00edfica. N\u00e3o obstante, a Enfermagem se expressa em ambos, refletindo essa disputa no \u00e2mbito da forma\u00e7\u00e3o de profissionais para atua\u00e7\u00e3o nestes modelos.<\/p>\n<p>A sa\u00fade coletiva se baseia na participa\u00e7\u00e3o do Estado na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de sa\u00fade, na intersetorialidade, na descentraliza\u00e7\u00e3o e regionaliza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, na participa\u00e7\u00e3o social e na integra\u00e7\u00e3o dos programas de promo\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o e controle. Desenvolvida pelo SUS, \u00e9 respons\u00e1vel pelo desenvolvimento da vigil\u00e2ncia, aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, assim como programas e pol\u00edticas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>A medicina cient\u00edfica, no entanto, preconiza o indiv\u00edduo como seu objeto de interven\u00e7\u00e3o, reconhece a natureza biol\u00f3gica das doen\u00e7as, induz a especializa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, concentra o aparato tecnol\u00f3gico e os recursos humanos em hospitais e cl\u00ednicas especializadas.\u00a0Mais conhecida como modelo flexneriano, \u00e9 desenvolvida no setor particular de alta complexidade e possui vi\u00e9s de lucro.<\/p>\n<p>Foi esse \u00faltimo modelo que se desenvolveu com mais for\u00e7a nas \u00faltimas d\u00e9cadas no Brasil. Isso porque o contexto de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva da sociedade, principalmente nos anos 1990, preconizava a redu\u00e7\u00e3o dos gastos do Estado com pol\u00edticas p\u00fablicas, a privatiza\u00e7\u00e3o e as terceiriza\u00e7\u00f5es dos servi\u00e7os, e a provis\u00e3o de seguros. Em que pese o surgimento do SUS, o desfinanciamento da sa\u00fade p\u00fablica permitiu a expans\u00e3o indiscriminada do modelo privado da sa\u00fade, que \u00e9 locus de aplica\u00e7\u00e3o da medicina cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Seguindo essa l\u00f3gica, a inser\u00e7\u00e3o da Enfermagem no mundo do trabalho se deu, nos \u00faltimos anos, sob novas formas de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, de gerenciamento do trabalho, sob o aumento da divis\u00e3o t\u00e9cnica e social do trabalho, sob a supress\u00e3o de direitos trabalhistas e a baixa remunera\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra dos profissionais. Al\u00e9m disso, a busca por excel\u00eancia na assist\u00eancia e o incremento da produtividade imp\u00f4s restri\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e ps\u00edquicas a enfermeiros, t\u00e9cnicos e auxiliares. Foi nesse contexto que a Enfermagem fez o enfrentamento \u00e0 pandemia de Covid 19, no Brasil.<\/p>\n<p>Os governos e o setor privado da sa\u00fade concentraram as a\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 pandemia no ambiente hospitalar, principalmente em UTIs e prontos socorros, com pr\u00e1ticas orientadas para o controle cl\u00ednico da doen\u00e7a atrav\u00e9s de interven\u00e7\u00f5es, procedimentos e medicaliza\u00e7\u00e3o. O manejo de ventiladores mec\u00e2nicos, por exemplo, ganhou destaque por conta da s\u00edndrome respirat\u00f3ria aguda grave (SRAG) caracter\u00edstica da doen\u00e7a. Os hospitais, tanto do SUS, como da rede privada, extrapolaram a capacidade de interna\u00e7\u00e3o de pacientes com Covid-19.<\/p>\n<p>A falta de insumos como Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPIs), medica\u00e7\u00f5es e aparelhos, revelou a depend\u00eancia do Brasil das importa\u00e7\u00f5es de tecnologia dos pa\u00edses desenvolvidos e a fragilidade do nosso complexo econ\u00f4mico industrial da sa\u00fade (CEIS). O SUS se encontrava sob a din\u00e2mica de austeridade imposta pela Emenda Constitucional 95, que retira mais de R$ 20 bilh\u00f5es por ano da sa\u00fade p\u00fablica. Al\u00e9m disso, devido ao negacionismo de Bolsonaro, o Governo Federal pouco se mobilizou para criar uma estrat\u00e9gia eficaz de combate \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Tudo isso fez com que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho para os profissionais da Enfermagem fossem as piores poss\u00edveis. A alta taxa de contamina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o combinada com a escassez de recursos nos hospitais causou colapso no sistema, sobrecarga de trabalho, supress\u00e3o de direitos trabalhistas, burnout, ass\u00e9dio moral, aumento da exposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus e muitas mortes de profissionais. Nesse contexto, o Brasil registrou cerca de 30% de todas as mortes por Covid-19 entre trabalhadores da sa\u00fade.<\/p>\n<p>O investimento na abertura de leitos de UTIs, na compra desenfreada de ventiladores mec\u00e2nicos e de medicamentos sem efic\u00e1cia comprovada contra a Covid em detrimento da amplia\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria em Sa\u00fade, impactou negativamente na assist\u00eancia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e na situa\u00e7\u00e3o dos profissionais.<\/p>\n<p>Poderia ter sido diferente se a prioridade fossem as medidas de preven\u00e7\u00e3o, tais como: rastreio dos casos, testagem em massa, isolamento social efetivo, vigil\u00e2ncia dos territ\u00f3rios, investimento no CEIS, investimento em sa\u00fade p\u00fablica, prote\u00e7\u00e3o dos profissionais e no desenvolvimento de uma vacina em tempo h\u00e1bil para imunizar a popula\u00e7\u00e3o. O Brasil poderia ter evitado grande parte das quase 700 mil mortes registradas.<\/p>\n<p>A luta da Enfermagem no 1\u00ba de maio de 2020 chamou a aten\u00e7\u00e3o da sociedade para a situa\u00e7\u00e3o dos profissionais, do SUS e da hecatombe social que estaria por vir. A situa\u00e7\u00e3o dos profissionais, que j\u00e1 era de pen\u00faria antes da pandemia, fez avan\u00e7ar a consci\u00eancia de classe da categoria. A aprova\u00e7\u00e3o do PL 2564 no Senado e na C\u00e2mara dos Deputados, ap\u00f3s dezenas de mobiliza\u00e7\u00f5es nos estados e no DF, foi um passo importante para que a Enfermagem fizesse as reflex\u00f5es necess\u00e1rias sobre as pr\u00e1ticas que desenvolve na sociedade.<\/p>\n<p>Mas essa conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social por parte da Enfermagem deve ser cada vez mais fortalecida, e a categoria deve sim assumir a luta pelo fortalecimento do SUS, como ordenador das pol\u00edticas de sa\u00fade nos tr\u00eas n\u00edveis de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, e utilizando o modelo de sa\u00fade coletiva como base para interven\u00e7\u00e3o sobre as necessidades da popula\u00e7\u00e3o nos territ\u00f3rios. Isso requer a mobiliza\u00e7\u00e3o de milhares de profissionais na defesa do SUS e na luta por mais investimento na sa\u00fade p\u00fablica, e tamb\u00e9m perpassa pela luta por direitos e reconhecimento social da categoria.<\/p>\n<p><strong><em>A luta pela aprova\u00e7\u00e3o do Piso Salarial deve ser entendida tamb\u00e9m como parte da luta em prol da sa\u00fade p\u00fablica \u2013 afinal, um SUS forte \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a valoriza\u00e7\u00e3o da Enfermagem.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Jorge Henrique, secret\u00e1rio-geral do SindEnfermeiro-DF O m\u00eas de maio de 2022 foi, sem d\u00favidas, hist\u00f3rico para a Enfermagem Brasileira. A aprova\u00e7\u00e3o do Piso Salarial na C\u00e2mara dos Deputados, ap\u00f3s intensa mobiliza\u00e7\u00e3o da categoria nos estados e no DF, foi um alento a milhares de profissionais que sofreram durante a pandemia de Covid-19. 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