
O Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal (SindEnfermeiro-DF) celebrou 45 anos de história com uma sessão solene no auditório da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). A homenagem foi proposta pela deputada distrital Dayse Amarilio (PSB) e realizada na tarde de sexta-feira (6), quando reuniu mais de 300 filiados e convidados.
Durante a cerimônia, representantes da enfermagem e lideranças sindicais relembraram a trajetória da entidade, marcada por mobilizações, enfrentamentos e conquistas para a categoria ao longo de mais de quatro décadas.
Ao abrir a sessão, Dayse Amarilio destacou a relação pessoal com o sindicato e afirmou que a história da entidade se mistura com a sua própria trajetória. “A história do sindicato está dissolvida na minha vida. Eu não seria o que sou hoje se o sindicato não tivesse feito parte da minha caminhada. É uma coisa só”, afirmou.
A deputada relembrou que, quando decidiu ingressar no movimento sindical, enfrentou resistência dentro da própria família. “Quando eu disse que tinha sido convidada para participar da luta sindical, minha família foi contra. Mas foi ali que eu aprendi muito”, contou.
Para Dayse, o papel do sindicato vai além da defesa de direitos trabalhistas. “Sempre acreditei que a maior função de um sindicato é transformar a realidade social onde está inserido, por meio da sua categoria. A enfermagem é uma profissão fundamental para gerar transformações reais na vida das pessoas. Se estivesse mais presente nos espaços de poder, o mundo seria mais democrático e mais justo”, afirmou.
Ela também alertou para os impactos da precarização do trabalho na saúde. “Se um de nós está precarizado, todos estamos. Isso impede que entreguemos a assistência que gostaríamos e acaba resultando em um atendimento inseguro para a população.”
A presidente da ABEn-DF, Karine Afonseca, destacou que o movimento sindical historicamente enfrenta tentativas de criminalização no Brasil. Para ela, a celebração dos 45 anos do SindEnfermeiro representa um marco importante para a enfermagem. “São poucas categorias que podem dizer que têm um instrumento de luta combativo e reconhecido pela sociedade”, explicou.
Representando a enfermagem, a secretária-geral da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), Rosalina Sudo, lembrou da importância da organização coletiva e das primeiras mobilizações sindicais dentro das unidades de saúde do DF.
Segundo ela, a luta coletiva foi responsável por conquistas históricas para a categoria. “Quando comecei a trabalhar na Secretaria de Saúde, a carga horária era de 44 horas semanais. Depois passou para 40, depois 36, depois 30 e hoje chegamos às 20 horas semanais. Tudo isso é fruto de muita luta coletiva”, afirmou.
A ex-presidente do sindicato Fátima Aparecida Lemos também destacou a importância dessas conquistas e lembrou que a redução da carga horária no Distrito Federal foi inédita no país. “Foi uma vitória histórica do sindicato e uma conquista que permanece para toda a vida profissional da categoria”, disse.
A presidente da Federação Nacional dos Enfermeiros (FNE), Solange Caetano, ressaltou que o DF se tornou referência nacional nesse tema. “Aqui é o único lugar do Brasil onde existe uma jornada de 20 horas semanais para enfermeiros. Enquanto isso, no Senado Federal tramita a PEC 19, que propõe a jornada de 30 horas para a enfermagem em todo o país”, completou.
A proposta em discussão no Congresso Nacional prevê vincular o piso salarial da enfermagem à jornada máxima de 30 horas semanais, além de garantir reajuste anual com base na inflação. A medida busca corrigir distorções provocadas após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que permitiu o pagamento do piso proporcional a jornadas de até 44 horas semanais, o que reduziu o valor recebido por muitos profissionais.
Considerada uma pauta de justiça para a categoria — composta majoritariamente por mulheres (85%) e pessoas negras (53%) — a PEC pretende garantir valorização profissional e melhores condições de trabalho para enfermeiros, técnicos, auxiliares e parteiras em todo o país.
O representante do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), o conselheiro João Batista de Lima também convocou a categoria a participar das mobilizações nacionais em defesa da PEC 19, que estabelece a jornada de 30 horas semanais para a enfermagem no Brasil. “Essa proposta busca garantir mais qualidade de vida para uma categoria que muitas vezes precisa ter vários empregos para sustentar a família com dignidade.”
Já a ex-presidente do SindEnfermeiro-DF Jacinta relembrou os primeiros passos da organização sindical da categoria. Segundo ela, as discussões sobre a criação do sindicato começaram ainda dentro do centro cirúrgico do Hospital Regional do Gama.
“Eu lembro das idas e vindas ao Ministério do Trabalho para conseguir a carta sindical e da primeira sala do sindicato, que nós mesmos pagávamos, no Edifício Márcia, no Setor Comercial Sul”, recordou.
O presidente do Coren-DF, Elissandro Nogueira, agradeceu o convite e destacou a importância da participação dos profissionais na organização sindical. Ele incentivou os enfermeiros a fortalecerem a entidade. “Cada enfermeiro sindicalizado precisa chamar outro colega para se sindicalizar. Um sindicato forte conquista mais direitos para a categoria”, exclamou.
Durante seu discurso, a deputada Dayse Amarilio também criticou o contingenciamento de recursos da saúde pública no Distrito Federal. Segundo ela, a população tem pago o preço com dificuldades de acesso ao atendimento.
“Hoje vemos aposentados que não conseguem atendimento nem nas unidades onde trabalharam a vida inteira”, afirmou. A deputada também citou o caso da compra do Banco Master pelo BRB, que, segundo ela, teria impactado recursos públicos que poderiam estar sendo destinados à saúde.
Encerrando a sessão, o presidente do SindEnfermeiro-DF, Jorge Henrique, fez uma reflexão sobre o papel da enfermagem e do sindicato diante dos desafios atuais da saúde pública.
Segundo ele, o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma das maiores experiências de organização social do país, responsável por desenvolver estratégias para compreender as necessidades da população e construir respostas a partir da articulação entre profissionais, serviços e políticas públicas.
Ele pontou que a enfermagem avançou significativamente nas últimas décadas, tanto no campo teórico quanto na prática assistencial, e contribuiu diretamente para o fortalecimento das políticas públicas de saúde.
Durante o discurso, Jorge Henrique também salientou três princípios que, segundo ele, marcam a trajetória do sindicato: a defesa da saúde pública, a valorização e dignidade do trabalho da enfermagem e o papel da entidade como instrumento de desenvolvimento social.
“Não existe enfermagem forte em um sistema de saúde enfraquecido. Por isso, precisamos ir além das reivindicações econômicas e defender um projeto de saúde pública que garanta investimento, qualidade no atendimento e valorização dos trabalhadores”, afirmou.
Ele também enfatizou a independência política da entidade e explicou que o sindicato não vende pauta, pois a luta é por uma política de saúde forte.
Ao final da celebração, ex-diretores, integrantes da atual diretoria, funcionários da entidade e filiados presentes receberam menções honrosas em reconhecimento à contribuição de cada um para a construção e fortalecimento dos 45 anos de história do SindEnfermeiro-DF.
Por Camila Piacesi