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Qual o papel dos sindicatos diante da crise do banco Master e BRB?

Publicada em 4 de fevereiro de 2026

Por Jorge Henrique, presidente do SindEnfermeiro-DF 

Nas últimas semanas, a relação entre o governo do Distrito Federal, o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master ganhou destaque na mídia e no debate político brasileiro. A crise financeira e política envolvendo o banco de Daniel Vorcaro atingiu em cheio o governador do DF, Ibaneis Rocha. O caso está ligado à tentativa de compra do Banco Master pelo BRB em uma operação bilionária que acabou gerando uma série de investigações.

Entre 2024 e 2025, o BRB adquiriu aproximadamente R$ 16 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master. O Banco Central identificou que a maior parte desses ativos eram fraudulentos ou inexistentes, deixando a instituição pública exposta a riscos elevados e podendo gerar um prejuízo de até R$ 5 bilhões para os cofres do banco público.

No centro das investigações, Ibaneis Rocha aparece como suposto operador da aproximação entre o BRB e o Banco Master. Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro confirmou que manteve encontros com o governador do DF entre 2024 e 2025, incluindo visitas pessoais, e afirmou que algumas dessas conversas foram relacionadas à negociação entre os dois bancos.

Em meados de 2025, Ibaneis assumiu publicamente o papel de principal articulador político da compra do banco Master pelo BRB, sancionando lei aprovada pela Câmara Legislativa do DF (CLDF) que autorizava a aquisição do banco pelo valor de R$ 2 bilhões. O Banco Central indeferiu o requerimento referente à aquisição de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Banco, devido às suspeitas de operações com carteiras de crédito sem lastros e fraude financeira.

Toda essa trama envolvendo o governador e o Banco Master pode impactar direta e indiretamente os serviços públicos do DF, pois o BRB é um banco público controlado pelo GDF, e esse caso envolve recursos, confiança institucional e riscos financeiros que reverberam no orçamento público. Como acionista majoritário, o governo vai ter que cobrir prejuízos do banco para garantir sua solvência.

Conhecendo a política orçamentária de Ibaneis para as políticas públicas, o governo deve retirar dinheiro de áreas prioritárias como saúde, educação, segurança e infraestrutura para socorrer o BRB. Isso deve impactar sobremaneira os serviços públicos da capital federal, pois o governo já vem adotando um regime de austeridade fiscal nos últimos anos.

Não é novidade, por exemplo, que Ibaneis Rocha vem promovendo constrangimentos à saúde, reduzindo sistematicamente o investimento em ações e serviços públicos. Em 2025, com base no Projeto de Lei Orçamentária Anual, o governo aplicou em ações e serviços de saúde um percentual de 12,11% das receitas correntes líquidas, abaixo do valor mínimo constitucional que é de 13,13%. Em 2015 (10 anos atrás), esse percentual foi 21,29%.

Em junho de 2025, em uma canetada, Ibaneis contingenciou aproximadamente R$ 500 milhões da saúde. Para 2026, o governo aprovou lei orçamentária reduzindo a despesa do Fundo Constitucional na saúde em R$ 1,1 bilhão, apontando deliberadamente para uma política de restrição orçamentária e estrangulamento das ações e serviços de saúde.

No final do ano passado, acompanhamos a crise financeira do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). Devido à falta de repasses da Secretaria de Saúde do DF (R$ 118 milhões), o hospital teve que bloquear 24 leitos de Unidade de Terapia Intensiva e 65 leitos de internação (89 leitos no total), descontinuando e comprometendo o atendimento a pacientes internados, com câncer ou outro quadro de saúde mais grave.

Essa política orientada para o desfinanciamento da saúde tem uma explicação: Ibaneis precisa salvar o BRB e garantir suas operações após o rombo gerado pelos investimentos no banco Master. Para isso, irá sacrificar os serviços públicos, servidores e a população do DF. Os servidores públicos, por exemplo, já iniciaram o ano sob ameaça de não receberem o pagamento de TPD (uma espécie de hora extra) e adicional noturno.

Em memorando da Secretaria de Economia, o Governo está retirando o direito dos servidores converterem os períodos não usufruídos da licenças-prêmios em pecúnia com a justificativa de contenção de despesas. Além disso, fantasmas que outrora ameaçavam os servidores, como o recadastramento dos títulos para aquisição da GTIT (gratificação de titulação), reapareceram para acabar com a paz daqueles que só querem garantir direitos já conquistados. A verdade é que os servidores irão enfrentar uma fase de cortes de benefícios e direitos devido às contenções no orçamento público.

Diante de toda essa crise, os sindicatos devem sair em defesa do BRB e do seu papel estratégico como instrumento de gestão financeira, de políticas públicas, do desenvolvimento e estruturante do DF. Ao mesmo tempo, o movimento sindical deve rechaçar a política de Ibaneis, denunciando a utilização do banco para interesses particulares.

Ibaneis quer utilizar a crise envolvendo o BRB para intensificar os ataques aos serviços públicos, aos direitos dos servidores e manter intacta a política de entrega do patrimônio e orçamento públicos para o setor privado. Defender o BRB não significa defender a política de desmonte do governo.  Por isso, os sindicatos devem mobilizar a população e os trabalhadores para defenderem os serviços e o patrimônio públicos da cidade.

Uma das medidas que o movimento sindical deve exigir junto aos partidos, movimentos sociais e à juventude é que o governo acabe com a bolsa empresário, reduzindo a renúncia fiscal de R$ 10 bilhões para o mesmo patamar de 2019 (R$ 1,9 bilhão). Os sindicatos devem fazer, também, uma luta permanente para acabar com as terceirizações dos serviços, como no caso do IGESDF, que absorve mais de R$ 2 bilhões da saúde. Dessa forma, os recursos podem ser utilizados em benefício da população e desenvolvimento da cidade.

Em 2026, o desafio central será enfrentar e reverter o desmonte das políticas públicas no DF. Ibaneis já escolheu cortar o orçamento da saúde, aprofundar terceirizações, manter o déficit de 25 mil servidores sem novas nomeações, e ignorar as demandas dos servidores por reestruturação das carreiras e melhorias em infraestrutura.

Cabe aos sindicatos e servidores, uma ampla mobilização para recompor o orçamento da Saúde, realizar concursos públicos, garantir condições dignas de trabalho e assegurar a valorização salarial servidores. Mas isso só vai acontecer se os sindicatos organizarem um movimento unificado para impor uma derrota à política de Ibaneis de destruição dos serviços públicos. É ilusão achar que uma aproximação com o governo Ibaneis neste momento irá garantir qualquer melhoria para os servidores e para os serviços públicos da cidade.

O movimento sindical do DF não deve titubear em apoiar o pedido de abertura da CPI do banco Master na CLDF. Além disso, mediante todas as provas de envolvimento do Ibaneis no escândalo envolvendo o BRB, os sindicatos devem participar de toda e qualquer mobilização que peça o afastamento de Ibaneis do cargo.

O SindEnfermeiro seguirá mobilizado, se opondo à política de desmonte e terceirização de Ibaneis Rocha, e defendendo a ampliação do investimento em políticas públicas, em especial para construção de um SUS público, universal e de qualidade no DF.