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SAÚDE MENTAL: como a pandemia tem afetado os enfermeiros?

Publicada em 11 de setembro de 2020

Na linha de frente contra um inimigo invisível e letal, muitos enfermeiros têm enfrentado também o adoecimento mental. Crises de ansiedade, medo de contaminar a família e muitas vezes a morte começaram a fazer parte do cotidiano dessas trabalhadoras e trabalhadores que já tinham que lidar com falta de materiais e de condições dignas de trabalho.

Até 08 de setembro, o Observatório da Enfermagem – plataforma do Conselho Federal de Enfermagem que faz o levantamento de profissionais infectados pela Covid-19 – já contabilizava 396 trabalhadores da enfermagem vítimas da doença e mais de 38 mil infectados. Das mortes, cerca de 65% eram mulheres e 35% homens. Entre as infecções, 85% eram formadas por profissionais do sexo feminino e 15% masculino.

De acordo com a psicóloga Sabrina Amorim, o estresse no trabalho, por si só, já é um fator de adoecimento. E o fato de os trabalhadores da saúde lidarem com a morte, é um fator que pode potencializar esse problema. “A morte por muitas vezes nos remete à impotência, pois um dos valores dos profissionais de saúde é lutar pela vida. E este sentimento de impotência tão frequente em uma pandemia, aumenta ainda mais o desejo e a pressão por salvar”.

A psicóloga também afirma que o medo é outro sentimento muito presente nesta área de atuação, uma vez que, a Covid é uma doença desconhecida, sem estudos prévios e protocolos de cuidado. Esse cuidado empírico aumenta ainda mais a insegurança.

Rotina

Exaustiva, essa é a palavra usada pela enfermeira Nayara Jéssica, que atua em uma Unidade Básica de Saúde no Riacho Fundo 2. A profissional relata que além dos serviços habituais, a unidade em que trabalha precisou adaptar e modificar todo o modelo de atendimento para suprir a demanda dos pacientes com sintomas respiratórios.

“Isso gera uma grande pressão assistencial. Nós sofremos pressão dos dois lados: da população que está desassistida por conta das mudanças no atendimento, e da população que está com sintomas e quer que nós – profissionais de saúde – tomemos condutas sem base científica, baseadas no que eles viram na televisão ou em mídias sociais”, relata Nayara.

(Nayara Jéssica, paramentada para realizar atendimentos)

Karol Souza, enfermeira em formação da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) também relata uma rotina cheia de cuidados. Karol está no último ano de enfermagem e atua na Atenção Primária em Saúde (APS). Além dos cuidados no ambiente em que atua, ela redobra os cuidados quando chega em casa. Tudo isso, para não contaminar a família.

“Com certeza isso afeta a saúde mental. Você fica um pouco neurótico. Passa sempre álcool em gel, lava constantemente as mãos. Sempre tem aquele sentimento de ”será que esse paciente que eu atendi está infectado? Será que meu colega está assintomático? ”, são muitos pormenores que acabam afetando a nossa saúde mental”, revela Karol.

Fatores psicológicos que causam o adoecimento

Sabrina revela que uma série de motivos pode afetar a saúde mental dos trabalhadores. De acordo com a psicóloga, a pressão no trabalho, o sentimento de impotência, a frustração e o medo associados à falta de uma rede de apoio e distrações, culminam no adoecimento mental. Segundo ela, crises de ansiedade, estresse pós-traumático, síndrome de burnout e depressão são patologias que aumentaram muito entre os profissionais de saúde neste momento.

“Imagina passar por tudo isso com distanciamento social? O isolamento retirou ou diminuiu as nossas fontes de “escape”, tradicionalmente praticada. Antes da pandemia, as pessoas possuíam uma rede de apoio mais próxima, proporcionada por encontros sociais entres amigos, reuniões familiares, a prática de cursos e atividades físicas presenciais. No entanto, toda essa forma de alcançar reformadores positivos teve que ser reinventada. E muitos de nós, sem querer, caímos em uma jornada solitária, privada de apoio e de prazer. E com os profissionais não seria diferente”, pontua a psicóloga.

Diminuindo os efeitos da pandemia

Meditação, exercícios físicos, conversa com amigos… Essas são algumas maneiras para tentar amenizar os efeitos de uma rotina exaustiva. Karol Souza conta que nos momentos de descanso tenta não consumir conteúdo que falem sobre a Covid e começou a escrever poesias. “Procuro ler sobre assuntos que não sejam da área da saúde ou da pandemia. Literatura, referências políticas. Tenho escrito poesias, coisas que me deixam mais relaxada. Tento exteriorizar através da escrita, essas angustias que ficam guardadas”, revela Karol.

As atividades físicas foram a saída que Nayara Jéssica encontrou para ajudá-la nesse período. “Chegou um momento em que ficou insustentável. Daí eu comecei a fazer atividades ao ar livre. Pelo menos três vezes na semana eu ando de patins no Parque da Cidade. Sempre vou à noite, porque é um horário vazio em que não tem muitas pessoas. Fiz um compromisso de tornar isso uma obrigação, mesmo naqueles dias em que estou muito cansada, ou chateada. Isso tem me ajudado a espairecer e colocar os problemas para fora”, relata Nayara.

Além dessas maneiras, a ajuda profissional também é necessária. Por isso, o SindEnfermeiro-DF preparou uma lista com locais para atendimento psicológico gratuito ou de baixo custo, voltado tanto para a população como para os profissionais de saúde que estão na linha de frente contra o coronavírus:

Clínica-Escola da UDF:

Serviço de Psicologia João Cláudio Todorov – IESB: (61) 99264-4227 (WhatsApp) h

Acolhimento em Grupo – SESC/DF: envie um e-mail para renatam@sescdf.com.br e informe nome completo e horário preferencial de atendimento. Os grupos de até 15 pessoas serão criados de acordo com a demanda.

Chat online – COFEN: acesse o site juntoscontracoronavirus.com.br e acesse o chat no canto inferior da tela. (Atendimento apenas para profissionais da saúde).

Chat online e telefone – CVV: ligue 188 ou acesse cvv.org.br/chat.